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Quando uma recompra de ações vale mais do que uma recompra de ações
Como a comunicação financeira transforma uma decisão de alocação de capital em geração de valor para investidores e contribui para reduzir o custo de capital
Todos os dias, profissionais de Relações com Investidores (o famoso RI) comunicam fatos que, à primeira vista, parecem estritamente financeiros: divulgação de resultados, emissão de dívidas, pagamento de dividendos, alterações societárias, aquisições e programas de recompra de ações. Entretanto, o mercado raramente precifica apenas o fato em si. O que investidores, analistas e gestores procuram compreender é o significado daquela decisão dentro da estratégia da companhia.
É justamente nesse ponto que a comunicação financeira deixa de ser apenas uma obrigação regulatória para assumir um papel estratégico. O documento enviado à Comissão de Valores Mobiliários (a famosa CVM) representa apenas o início da conversa. A interpretação que o mercado fará daquela informação dependerá da qualidade da narrativa construída pelo profissional de RI, da consistência da mensagem transmitida pelo management e da capacidade da companhia em contextualizar seus movimentos.
E poucas operações ilustram tão bem essa realidade quanto os programas de recompra de ações.
Embora a recompra seja frequentemente associada à percepção de que uma empresa acredita que suas ações estão negociadas abaixo de seu valor justo, essa é apenas uma das possíveis interpretações. Dependendo da forma como a operação é comunicada, ela pode transmitir mensagens bastante distintas: confiança na geração futura de caixa, disciplina na alocação de capital, ausência de oportunidades de investimento, preparação para planos de remuneração baseados em ações ou mesmo ajustes na estrutura societária.
Pensando nisso, a MZ publicou o Estudo “Fatos Relevantes e Comunicados ao Mercado sobre Recompra de Ações em 2025”, que evidencia justamente como esse instrumento continua sendo amplamente utilizado pelas companhias abertas brasileiras e como sua correta comunicação permanece essencial para fortalecer a transparência e reduzir assimetrias informacionais. O levantamento analisou todos os Fatos Relevantes e Comunicados ao Mercado arquivados na CVM sobre programas de recompra ao longo de 2025, oferecendo uma visão abrangente do comportamento das empresas brasileiras nesse tema.
Mais do que apresentar estatísticas, os dados revelam tendências importantes sobre governança, alocação de capital, estratégia financeira e comportamento das companhias perante seus investidores. E, talvez mais importante, demonstram que existe uma oportunidade frequentemente subaproveitada: transformar um comunicado regulatório em um poderoso instrumento de construção de confiança.
Recompra de ações é uma decisão financeira que comunica muito mais do que números
Em teoria, um programa de recompra possui uma mecânica relativamente simples. A companhia adquire ações de sua própria emissão no mercado, reduzindo a quantidade de papéis em circulação ou mantendo-os em tesouraria para finalidades estratégicas. Na prática, porém, essa decisão costuma carregar uma mensagem implícita muito mais relevante do que sua execução operacional.
Quando uma administração decide recomprar ações, ela está, consciente ou inconscientemente, emitindo um sinal para o mercado. Esse sinal pode indicar que acredita que a empresa está subavaliada, que possui geração de caixa suficiente para devolver recursos aos acionistas, que deseja aumentar indicadores por ação ou que pretende utilizar esses papéis em programas de remuneração de executivos ou futuras operações societárias. O próprio estudo destaca que a recompra pode servir a diferentes objetivos estratégicos e que cabe ao profissional de RI garantir que o mercado compreenda adequadamente essa motivação.
O problema é que sinais financeiros raramente são interpretados de forma uniforme.
Enquanto alguns investidores enxergam uma recompra como demonstração inequívoca de confiança da administração, outros podem questionar por que aquele caixa não está sendo direcionado para crescimento, redução de endividamento ou novos investimentos.
Essa diferença de percepção é justamente o espaço ocupado pela comunicação financeira.
Uma companhia que simplesmente divulga um Fato Relevante informando o início de um programa de recompra cumpre sua obrigação regulatória.
Já uma companhia que explica porque está recomprando ações, como essa decisão se encaixa em sua estratégia de alocação de capital, quais critérios nortearam a aprovação do programa e de que forma isso dialoga com seus objetivos de longo prazo cria uma narrativa muito mais robusta, reduzindo incertezas e aumentando a confiança do mercado.
Essa diferença parece sutil. Mas ela pode alterar significativamente a forma como investidores precificam a empresa.
O mercado não compra apenas ativos, compra histórias consistentes.
Existe um conceito amplamente aceito no mercado financeiro: ativos são precificados não apenas pelos seus resultados atuais, mas principalmente pelas expectativas futuras.
Isso significa que o valor de uma companhia depende, em grande medida, da confiança que investidores possuem em relação à sua capacidade de executar sua estratégia.
E confiança é construída por meio da comunicação.
É por isso que empresas com fundamentos semelhantes frequentemente apresentam múltiplos de negociação bastante diferentes. Nem sempre a diferença está exclusivamente nos indicadores financeiros. Muitas vezes ela reside na previsibilidade, na transparência, na qualidade da governança, na consistência da mensagem e na credibilidade construída ao longo dos anos.
O profissional de RI ocupa exatamente essa interface entre a estratégia corporativa e a percepção do mercado. Seu trabalho consiste em reduzir a assimetria informacional existente entre companhia e investidores. Quanto menor essa assimetria, menor tende a ser a percepção de risco. E quanto menor a percepção de risco, menor tende a ser o retorno exigido pelos investidores para financiar aquela empresa.
Essa lógica explica como comunicação e custo de capital estão diretamente conectados.
A recompra de ações oferece uma oportunidade particularmente interessante nesse aspecto porque costuma despertar grande interesse entre investidores. Ao contrário de diversos comunicados rotineiros, programas de recompra geram questionamentos imediatos, como, por exemplo:
- Por que agora?
- Qual o tamanho do programa?
- Qual a origem dos recursos?
- Existe percepção de subavaliação?
- A companhia continuará investindo em crescimento?
- Como essa decisão afeta dividendos?
Responder a essas perguntas antes mesmo que sejam feitas representa uma enorme vantagem competitiva para qualquer área de RI.
Os números de 2025 ajudam a compreender esse cenário
Os dados levantados mostram que, ao longo de 2025, 71 empresas, distribuídas em 18 setores, arquivaram documentos relacionados a programas de recompra de ações na CVM. Embora isso represente uma redução de 32% em relação ao ano anterior, o volume demonstra que esse continua sendo um instrumento amplamente utilizado pelas companhias brasileiras. O setor de Varejo foi aquele com maior número de empresas realizando arquivamentos, seguido por segmentos como Saúde e Imobiliário, evidenciando que a recompra deixou de ser uma prática restrita a poucos setores da economia.
Quase metade dos programas anunciados previa adquirir entre 1% e 5% do total de ações emitidas pela companhia. Além disso, aproximadamente 49% dos programas possuíam duração prevista entre 13 e 18 meses, indicando que, na maioria dos casos, não se tratavam de operações oportunísticas de curtíssimo prazo, mas de iniciativas planejadas dentro de uma estratégia mais ampla de gestão de capital.
Essa característica é extremamente relevante do ponto de vista da comunicação.
Quando uma empresa informa que pretende executar um programa ao longo de mais de um ano, ela está implicitamente dizendo que aquela decisão faz parte de um planejamento estruturado. Isso reforça estabilidade, disciplina e governança. Mas, novamente, somente quando essa mensagem é construída de maneira adequada.
Caso contrário, o mercado pode interpretar apenas que existe autorização para recompra, sem compreender sua lógica estratégica.
Outro dado do levantamento chama atenção. Em 88,7% das empresas foi identificada movimentação de ações em tesouraria após os anúncios dos programas. Isso demonstra que, na maioria dos casos, os programas efetivamente geraram movimentações relevantes. Ainda assim, poucas companhias aproveitam esses acontecimentos para reforçar sua comunicação com investidores.
O RI moderno não atua apenas como responsável pela divulgação de documentos obrigatórios. Ele atua como gestor da percepção do mercado. Sua função consiste em construir entendimento. Quanto mais clara for a compreensão dos investidores sobre determinada decisão financeira, menor tende a ser a assimetria informacional existente entre companhia e mercado.
Essa redução da assimetria produz efeitos concretos:
- Analistas conseguem elaborar modelos mais precisos.
- Gestores sentem maior confiança para aumentar posições.
- Investidores individuais entendem melhor a estratégia da companhia.
- A cobertura tende a ganhar qualidade.
- A volatilidade provocada por interpretações equivocadas diminui.
- E a credibilidade construída em uma comunicação consistente acaba se refletindo em múltiplos mais eficientes ao longo do tempo.
“Os melhores programas de Relações com Investidores não são aqueles que apenas divulgam informações. São aqueles que ajudam o mercado a compreender profundamente a estratégia da companhia. Quando isso acontece de forma consistente, a comunicação deixa de ser um custo e passa a ser um investimento que contribui para reduzir o custo de capital no longo prazo.”
Cássio Rufino, COO & CMO da MZ
Concluindo em um parágrafo ou mais
Os programas de recompra de ações continuarão fazendo parte da estratégia financeira de inúmeras companhias abertas. Em determinados momentos do ciclo econômico, poderão ser mais frequentes; em outros, perderão espaço para investimentos, aquisições ou distribuição de dividendos. Independentemente do cenário, uma característica permanecerá constante: toda decisão financeira relevante comunica algo ao mercado.
O Estudo demonstra que, mesmo com a redução no número de empresas e documentos arquivados em 2025, a recompra continua sendo uma ferramenta amplamente utilizada por companhias de diferentes setores e portes. Os dados também sugerem uma reflexão importante: comunicar uma recompra vai muito além de cumprir uma exigência regulatória. Trata-se de uma oportunidade para explicar ao mercado como aquela decisão se conecta à visão de longo prazo da companhia, à sua política de alocação de capital e ao compromisso da administração com a geração sustentável de valor.
Nesse contexto, o profissional de RI consolida sua posição como um dos principais responsáveis por traduzir decisões complexas em mensagens compreensíveis, fortalecendo a credibilidade da empresa perante o mercado.
A recompra de ações, portanto, não deve ser vista apenas como um mecanismo financeiro. Ela representa uma oportunidade estratégica para reforçar a narrativa corporativa, ampliar a transparência e estreitar o relacionamento com investidores. Quando inserida em uma comunicação clara, coerente e alinhada à estratégia da companhia, essa decisão contribui para reduzir assimetrias informacionais, fortalecer a percepção de valor e, no longo prazo, colaborar para um dos principais objetivos de qualquer organização de capital aberto: a redução sustentável do custo de capital.
Esperamos ter contribuído com insights sobre a importância de uma boa comunicação para as companhias em sua constante busca por redução do custo de capital. Qualquer dúvida, já sabem, estamos por aqui, sempre à disposição! 😉
Cássio Rufino e Equipe Comunicação Externa & Pesquisa MZ
mz.estudos@mzgroup.com | (11) 9599-1329
Sobre a MZ
A MZ é referência global na criação de conteúdos informativos e educativos que geram valor real para as companhias, ajudando-as a se manterem atualizadas e preparadas para os desafios do mercado de capitais. Nossa abordagem é estratégica, com foco em fortalecer o entendimento sobre práticas de governança, comunicação financeira e relações com investidores. Acreditamos que, por meio de conteúdo de qualidade, podemos apoiar as empresas a aprimorar sua comunicação, elevar sua reputação e agregar valor sustentável aos seus negócios.
Sobre Cássio Rufino
Cássio Rufino é estrategista empresarial, especializado na integração entre estratégia, marketing e performance financeira. É Sócio-diretor da MZ Group, sendo o atual COO e CMO, onde lidera áreas estratégicas de operações, sucesso do cliente e marketing. Formado em Administração de Empresas pelo Mackenzie, com pós-graduação e MBA Executivo em Finanças pelo Insper. Além de especializações em Gestão de Pessoas, Marketing e Atendimento ao Cliente.