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Capital global, governança e a força da comunicação financeira
Olhando para a última semana de fevereiro, com a temporada de divulgação de resultados do quarto trimestre de 2025 (o famoso 4T25) já iniciada, o Brasil tem registrado uma forte entrada de capital estrangeiro na B3, movimento que reforçou a percepção de que o Brasil voltou a figurar de maneira mais consistente no radar dos investidores globais.
De acordo com reportagem publicada pela CNN Brasil, o fluxo líquido de capital estrangeiro na B3 alcançou aproximadamente R$35,6 bilhões, contribuindo para que o IBOVESPA operasse em patamares historicamente elevados e batesse recordes. Paralelamente, o dólar encerrou o período próximo de R$5,16, menor nível em cerca de 20 meses, refletindo um ambiente de maior apetite por risco e melhora do fluxo externo para mercados emergentes.
Esse contexto coincidiu com o início da divulgação dos resultados corporativos do 4T25, criando uma combinação particularmente estratégica: liquidez internacional elevada somada à necessidade de o investidor global tomar decisões rápidas de alocação. Nesse cenário, a comunicação financeira deixou de ser apenas instrumento de compliance regulatório e passou a ser, de forma ainda mais evidente, mecanismo direto de captura de fluxo e redução de custo de capital.
Pensando nisso, a MZ, que tem como foco empoderar o profissional de RI, seja com tecnologia de ponta e atendimento excepcional, ou por meio da disseminação de conteúdos relevantes, traz neste artigo insights sobre dois de seus estudos recentes (sobre Ratings e Investor Days em 2025) e que ajudam a estruturar uma análise sob a ótica do profissional de Relações com Investidores (o famoso RI), com dados concretos e que permitem correlacionar governança, transparência, engajamento e percepção de risco.
A forte entrada de capital estrangeiro e a reprecificação de ativos
Movimentos de entrada de capital estrangeiro da magnitude observada em fevereiro não são neutros. Eles alteram liquidez, compressão de spreads e dinâmica de valuation entre setores e empresas. Em momentos de fluxo positivo, a assimetria de informação tende a se tornar mais visível: companhias que possuem narrativa clara e estratégia bem comunicada são rapidamente identificadas como candidatas naturais à alocação.
O investidor internacional, especialmente o institucional, trabalha com janelas curtas de decisão. Quando há fluxo relevante para mercados emergentes, gestores precisam definir rapidamente quais empresas oferecem combinação adequada entre risco, retorno e previsibilidade. Nessa etapa, a qualidade da comunicação se torna filtro decisivo. Empresas que apresentam seus resultados com clareza, contextualizam variações trimestrais e explicam impactos não recorrentes reduzem a incerteza e, consequentemente, o prêmio de risco exigido.
Podemos dizer então que fevereiro funcionou como um “teste de estresse” da maturidade dos programas de RI. Não bastava divulgar números; era necessário organizar narrativa, explicar trajetória de geração de caixa, detalhar estrutura de capital e demonstrar disciplina financeira.
A temporada de resultados do 4T25 como momento estratégico
A divulgação dos resultados do quarto trimestre costuma concentrar atenção redobrada, pois consolida o desempenho anual e oferece sinalizações para o exercício seguinte. Em um ambiente de fluxo estrangeiro positivo, essa temporada assume relevância ainda maior.
Resultados financeiros, isoladamente, não garantem captura de valor. O investidor busca coerência entre discurso e execução, estabilidade de margens, previsibilidade de alavancagem e clareza quanto à estratégia de crescimento. Empresas que se limitam à divulgação técnica e fria tendem a deixar lacunas interpretativas. Já aquelas que estruturam releases detalhados, apresentações estratégicas e sessões robustas de perguntas e respostas conseguem reduzir a assimetria informacional.
É nesse ponto que a comunicação financeira se conecta diretamente à formação de preço. Quanto menor a incerteza percebida, menor o custo de capital implícito. Em mercados competitivos por alocação de recursos, a clareza se transforma em vantagem comparativa.
Ratings, estabilidade e percepção de risco
O Estudo sobre relatórios de rating arquivados na CVM em 2025 revela que 189 empresas protocolaram 449 relatórios de agências de rating no período, representando crescimento de 4,4% no número de companhias em relação a 2024. Esse dado, por si só, já demonstra a crescente importância da estrutura formal de avaliação de risco no ambiente corporativo brasileiro.
A maioria das companhias que arquivaram relatórios possui registro como Categoria A e parcela relevante integra o Novo Mercado, reforçando a conexão entre governança e exposição ao mercado de capitais. A Fitch liderou a produção de relatórios e as perspectivas atribuídas foram majoritariamente estáveis, correspondendo a mais de 75% das avaliações.
A predominância de perspectivas estáveis indica um ambiente de risco controlado e previsibilidade razoável de crédito. Contudo, estabilidade não decorre apenas de indicadores financeiros históricos. Agências de rating consideram qualidade de governança, clareza de disclosure, consistência estratégica e capacidade de antecipação de riscos.
Nesse contexto, comunicação estruturada não é elemento periférico. Ela influencia diretamente a forma como a agência interpreta o risco futuro. Empresas que explicam adequadamente sua política financeira, detalham estratégia de desalavancagem ou demonstram disciplina de capital tendem a reforçar a percepção de estabilidade.
Além disso, as notas mais atribuídas pelas principais agências, como AAA(bra) na Fitch e AAA.br na Moody’s, mostram que parcela relevante das empresas alcança grau elevado de confiança. Esse posicionamento impacta diretamente o custo de dívida, ampliando o efeito da boa comunicação para além do mercado acionário.
Investor Day como instrumento de redução de assimetria
Já o Estudo “Investor Days Realizados em 2025” demonstra que 55 empresas realizaram esse tipo de evento no ano passado, com a ampla maioria listada na B3 e mais da metade integrando o Novo Mercado, reforçando novamente a ligação entre governança e profundidade de comunicação.
A duração média dos eventos foi de aproximadamente três horas, com tempo médio de 51 minutos dedicado exclusivamente a perguntas e respostas, crescimento relevante frente ao ano anterior. Esse dado é particularmente significativo, pois o Q&A é o momento em que a empresa enfrenta diretamente as dúvidas do mercado, expondo sua estratégia à análise crítica.
Ao permitir perguntas abertas, detalhar projeções, explicar cenários e apresentar múltiplos executivos, o Investor Day cumpre papel central na construção de credibilidade. Ele vai além do resultado trimestral e permite aprofundar a visão de longo prazo.
Em um período marcado por forte entrada de capital estrangeiro, eventos dessa natureza ampliam a capacidade de a companhia transformar liquidez potencial em alocação efetiva. O investidor internacional, muitas vezes distante geograficamente, encontra no Investor Day um canal estruturado de entendimento estratégico.
Ratings, comunicação e custo de capital
A conexão entre comunicação e ratings é menos visível, mas estrutural. Agências analisam não apenas balanços, mas também transparência e consistência de informações. Empresas que mantêm diálogo frequente com mercado e agência reduzem risco de surpresa negativa. Surpresas elevam volatilidade; volatilidade aumenta percepção de risco; risco maior implica custo de capital maior.
Quando observamos que 78,7% das perspectivas atribuídas foram estáveis, podemos inferir que grande parte das companhias conseguiu transmitir previsibilidade suficiente para sustentar avaliações conservadoras. Em paralelo, a realização estruturada de Investor Days, com envio antecipado de mailing e ampla disponibilização de replay, demonstra esforço deliberado de aprofundamento de relacionamento.
Esse conjunto de resultados bem comunicados, eventos estratégicos estruturados e relacionamento consistente com agências forma uma arquitetura de confiança. E confiança é variável central na determinação do custo de capital.
Concluindo em um parágrafo ou mais
Fevereiro evidenciou que o Brasil voltou a atrair capital estrangeiro de forma relevante. O fluxo de capital estrangeiro para a B3, a valorização do IBOVESPA em 2025 e seguindo nos dois primeiros meses do ano e a estabilização cambial criaram ambiente favorável à reprecificação de ativos.
No entanto, fluxo não é distribuído de maneira homogênea. Empresas que apresentarem seus resultados do 4T25 com clareza, sustentarem narrativa estratégica coerente e mantiverem diálogo estruturado com investidores e agências de rating sempre estarão melhor posicionadas para capturar essa liquidez.
Os dados do estudo sobre ratings e do estudo sobre Investor Days mostram que governança, estabilidade e profundidade de comunicação caminham juntas. Em última instância, comunicação financeira não é apenas ferramenta de transparência; é instrumento de redução de assimetria, estabilização de percepção de risco e compressão de custo de capital.
O começo do ano não está sendo apenas um período de entrada de recursos, mas sim um lembrete de que, em mercados competitivos, capital segue confiança. E confiança se constrói com consistência, estratégia e comunicação de alto nível.
Esperamos ter ajudado com esses insights tanto sobre o momento atual quanto dos Estudos publicados neste mês. Qualquer dúvida, estamos por aqui, sempre à disposição! 😉
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